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Lula critica G-20, ONU e destaca conquistas de seu governo no Fórum Social Mundial

Posted on 07 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

O Fórum Social Mundial 2011 mal começou em Dacar e já é possível dizer que a presença de Luiz Inácio Lula da Silva era a mais esperada do evento. Pelo menos umas das mais. No “Dia da África e Diáspora”, o ex-presidente da República do Brasil e o presidente do país anfitrião, Abdoulaye Wade, falaram sobre fome e sobre o papel geopolítico da África. Lula criticou países do (1) G-20, (2) a Organização das Nações Unidas (ONU) e (3) os que “deram instruções e não evitaram a crise”.

1) “Não pensem que lá tem sensibilidade para o problema da fome, para os pobres do mundo. Só fomos chamados para as reuniões dos países ricos porque eles estavam em crise e precisavam da nossa ajuda.”

2) “A governança mundial está enfraquecida. O mundo está mal representado. Não tem ninguém pra resolver conflitos. A ONU poderia resolver, se fosse representativa.”

3) “É cada vez mais forte a consciência de que o Consenso de Washington faliu. Aqueles que com arrogância nos davam instruções não evitaram a crise. Hoje somos parte essencial e incontornável da solução da crise internacional.”

Lula destacou as conquistas do Brasil durante seu governo: 15 milhões de empregos, o maior salário mínimo em 40 anos, o acesso de 21 milhões de jovens pobres ao ensino superior, mais vagas nas universidades públicas e o reflorestamento.

“Nosso êxito pode servir de estímulo à construção de um caminho alternativo para outras nações na busca de um desenvolvimento sustentável e igualidade social. A partir de 2003, o Brasil resgatou sua soberania política e econômica, afastou-se do neoliberalismo e adotou um novo modelo de desenvolvimento, que nos permitiu dar um salto histórico, distribuindo renda, conhecimento e poder. Nesse período, tiramos 28 milhões de pessoas da linha da pobreza e elevamos outras 38 milhões à classe média no maior processo de mobilidade social de nossa história. Saldamos parte da nossa dívida social e, ao mesmo tempo, pavimentamos o caminho do país para um novo futuro, inclusive em termos científico e sociológicos. Basta dizer que geramos 15 milhões de novos empresgos formais, alcançamos o maior salário mínimo dos últimos 40 anos, levamos energia elétrica a populações mais longínquas, promovemos uma verdadeira revolução produtiva na agricultura familiar, garantimos o acesso de 21 milhões de pobres ao ensino superior, dobramos o número de vagas nas universidades públicas, tudo isso acompanhado de uma sólida política ambiental, que criou 74% das novas florestas protegidas no planeta da década passada.”

Foto: Christina Fuscaldo

Leia a reportagem de Marcel Gomes, publicada no site Carta Maior (clique aqui):

Lula diz que expansão agrícola é chave para desenvolvimento da África

Bastante aplaudido por brasileiros em debate no FSM, Lula defendeu a criação do Estado Palestino, apoiou a revolta popular no Egito, criticou os países ricos e afirmou que as savanas africanas, como o cerrado brasileiro, poderiam dar suporte ao avanço da agricultura e da segurança alimentar

Marcel Gomes

Dacar, Senegal – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (7) que as nações africanas deveriam apostar no desenvolvimento agrícola como forma de garantir soberania alimentar e gerar riquezas por meio da exportação dos produtos.

Em sua primeira viagem internacional após deixar a presidência do Brasil, Lula veio ao Senegal para participar do Fórum Social Mundial em uma mesa de debates sobre “A África na geopolítica mundial”, na qual falou ao lado do presidente senegalês, Abdoulaye Wade.

Ao longo de sua exposição, bastante aplaudida por dezenas de ativistas brasileiros, Lula defendeu a criação de um Estado Palestino, apoiou a revolta popular no Egito, criticou as potências econômicas e o neoliberalismo e exaltou os resultados de seus governos (2003-2010), sobretudo no que diz respeito ao combate à miséria.

Após voltar ao Brasil, o ex-mandatário brasileiro fará outra viagem internacional neste mês: a convite, visitará o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que enfrentará eleições em 2012.

Em sua fala no Fórum, Lula afirmou que as nações africanas precisam cortar os laços de dependência que ainda mantêm com as ex-metrópoles. Para isso, a questão alimentar seria essencial. “Não há soberania efetiva sem segurança alimentar”, disse. Para o ex-presidente, a experiência brasileira na área agrícola, ainda que não seja possível a “transposição de modelos”, revela que é viável a expansão da produção de alimentos em terras pouco valorizadas.

“Até os anos 70 o cerrado brasileiro era considerado um deserto verde, sem condições de sustentar uma agricultura produtiva”, lembrou Lula. Mas, graças à atuação do Estado no fomento à pesquisa, essas regiões “tornaram-se grandes fornecedoras de alimentos para o mundo e viabilizou-se a política de erradicação da fome em nosso país”.

Para ele, as savanas africanas poderiam repetir a história do cerrado no continente. Segundo Lula, as savanas se espalham por mais de 25 países da África e, com investimento em pesquisa, seria possível desenvolver seu potencial agrícola.

Hoje, apenas 10% da área das savanas possuem cultivos agrícolas. Na opinião do brasileiro, a elevação desse índice ajudaria a reduzir o drama da fome no continente, que poderia se tornar um grande fornecedor de alimentos no mundo. “Se o território dos países ricos está escasso para produzir alimentos, se há mais africanos, chineses, indianos, coreanos e latinos comendo, onde há terra para produzir alimento?”, questionou, para em seguida responder: “A África e a América Latina podem e devem suprir os alimentos que são um produto essencial para a vida humana”.

Lula criticou ainda os subsídios agrícolas dos países ricos e a atual escalada de preços das commodities no mundo, afirmando que a culpa é da especulação. “Não há nenhuma explicação para o preço do petróleo superar 100 dólares”, disse.

Em ataque direto à ciranda financeira, o ex-mandatário lembrou que, apesar de sempre faltarem recursos para programas de erradicação da fome, sobraram fundos para “resgatar bancos e instituições financeiras na recente crise financeira internacional”.

Para o brasileiro, os países africanos precisam alterar os modelos de cooperação internacional vigentes e não mais aceitar a imposição de modelos externos.

Revoltas populares

O ex-presidente brasileiro registrou pleno apoio às revoltas populares que ocorrem no Norte da África e no Oriente Médio – segundo ele, causadas pela pobreza, pela dominação de tiranos e pela submissão das políticas internas à agenda das grandes potências. E avaliou que a criação de uma cultura de paz – um dos temas históricos do Fórum Social Mundial – não dependeria apenas do fim do comércio de armas, mas sobretudo do combate à fome, à desigualdade e ao desemprego.

Além de criticar a intolerância étnica, cultural e religiosa, Lula mais uma vez atacou o modus operandi dos países ricos, em especial a política da guerra preventiva dos Estados Unidos. Disse que, sem ingerências externas, a África teria mais chances de acelerar seu desenvolvimento econômico e social. “Nos 29 países que visitei como presidente, comprovei a vitalidade deste continente que aqui reafirma sua diversidade ética e cultural”, disse.

Para ele, a inclusão econômica de milhões de africanos pode ser uma estratégia para superação mais rápida da crise financeira internacional – assim como a expansão do mercado interno brasileiro evitou a intensificação dos problemas no país.

Ao terminar sua fala, Lula afirmou que o impasse em 2008 sobre as negociações comerciais de Doha, conduzidas pela Organização Mundial do Comércio, não foi resolvido até hoje por obra dos Estados Unidos, que se viam em eleições internas. Lula defendeu o engajamento dos ativistas nesse processo de negociações, bastante contestado por organizações que discutem o tema agrícola no Fórum Social Mundial.

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Abertura do Fórum Social Mundial teve ativistas na marcha e Evo Morales no palanque

Posted on 06 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

O Fórum Social Mundial começou neste domingo arrastando cerca de 50 mil pessoas às ruas de Dacar. Com faixas, gritos de guerra e muito a falar, às 14h, dezenas de delegações do mundo inteiro saíram em passeata do Triangule Sud (onde está situada a Grande Mesquita) à Universidade Cheik Anta Diop, cada uma delas divulgando sua luta. No pátio da faculdade, a única da capital do Senegal, um palco montado serviu de palanque para representantes de diversos países (Gilberto Carvalho por Dilma Roussef, além de tunisianos, egípcios etc) darem uma prévia do que será discutido no décimo fórum. O maior destaque da tarde ensolarada deste domingo foi Evo Morales, que fez um discurso de meia hora defendendo, entre outras questões, a nacionalização dos recursos naturais. O presidente da Bolívia afirmou que o capitalismo agoniza e, sobre os protestos populares, em especial os que estão acontecendo no Egito, que há uma “rebelião” nos povos árabes “contra o imperialismo norte-americano.

“O capitalismo agoniza no mundo frente à rebelião dos povos. O capitalismo tem crise financeira, crise energética e nos traz crise alimentar. E por isso os pobres, sejam agricultores, indígenas, trabalhadores, pobres das cidades, têm que pagar pela crise do capitalismo”, declarou Morales.

“As lutas sociais dos povos são indivisíveis. É o mesmo combate pela dignidade, justiça e igualdade. O que aconteceu na Tunísia não é independente das lutas dos outros povos. No último mês, os tunisianos lutaram por sua dignidade, liberdade, por trabalho e contra a corrupção, contra a ditadura selvagem que durou 23 anos. Graças a luta, a coragem e a solidaridade, graças a um povo jovem que não recuou diante dos tiros de bala, da repressão e dos cacetetes, os povos que são aqui representados devem fazer as mesmas coisas caso tenham em seus países regimes autoritários”, declarou o advogado tunisiano Trifil Bassem à equipe do site Carta Maior (conheça) logo após fazer seu discurso no palco.

Pela manhã, a imprensa alternativa se reuniu na biblioteca da universidade para combinar o esquema de divulgação dos eventos programados para acontecer no Fórum Social Mundial. A programação ainda não saiu impressa. Mas já se sabia que Evo Morales faria um discurso – e talvez uma coletiva de imprensa pequena – e que Lula havia confirmado presença na programação do “Dia da África e Diáspora”, na segunda-feira. O ex-presidente, aliás, é exaltado toda vez que um senegalês ouve a palavra “Brasil”. Lula é famoso em todo o mundo e, no Senegal, sua presença é mais que esperada. Durante a abertura do FSM, seu nome foi citado algumas vezes no palanque. Na área reservada para a imprensa logo à frente do palco, jornalistas do mundo todo (Mali, Camarões, Espanha, França, Itália) procuravam brasileiros para confirmar dia, hora e local do encontro com Lula.

Ainda na biblioteca, fomos convidados a reforçar o time que cobrirá todo o FSM para o site Carta Maior. Durante a marcha, entrevistas com ativistas de alguns dos 120 países participantes. Grupos em defesa das mulheres, das crianças, dos trabalhadores rurais, da cultura africana e muito mais. O Fórum Social Mundial é o evento no qual movimentos sociais e organizações civis debaterão alternativas para um mundo melhor, aprofundando suas ideias, formulando propostas e compartilhando experiências. A cada declaração, uma inspiração para se pensar em tudo que parece errado pelo mundo.

Um marroquino reclamava da briga de seu país com a Argélia pelo domínio do deserto do Saara. Comentei que o Brasil também há anos tenta convencer os Estados Unidos de que a Amazônia é nossa. Uma italiana dizia que veio ao FSM para tentar se desintoxicar de Berlusconi. E um integrante do Movimento dos Trabalhores Sem Terra – o movimento de luta pela reforma agrária – explicava que a representação do grupo no evento reforçaria ainda mais a luta por justiça social no Brasil.

Ao final, show do Ilê Ayê e de vários grupos senegaleses.

Fotos: Bia Barbosa, Christina Fuscaldo e Pedro Palmeiro

Acompanhe a cobertura do Fórum Social Mundial 2011 por:

Carta Maior

Ciranda

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As ruas, o mercado e as negociações com os comerciantes na capital do Senegal

Posted on 05 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

Sábado, quarto dia em Dacar.

Dacar é suja e desorganizada. Nas ruas, qualquer um faz um puxadinho para montar nele um salão de beleza. Nas calçadas, cabras passeiam ou comem. Os carros não respeitam nada nem ninguém. O cheiro de carburador queimado e a poeira que entra pelo nariz incomodam. Mas os senegaleses, quando não estão vendendo alguma coisa, são muito legais. Quando você vai mesmo comprar, dá para dizer que é bacana também. Hoje, conseguimos taxis baratos, almoçamos bem e fomos ao mercado. Parece que se chama Sandaga e que é o maior da capital do Senegal. Chato é quando cinco ou seis pessoas grudam em você insistindo para que compre alguma bugiganga. Estressou. Um mundo novo se abriu quando descobrimos uma tenda – que escondia uma loja grande – de tecidos.

Matar Faye começou cobrando 50 euros por cada peça e acabou me vendendo duas delas por 20. Comprei patchworks lindos e um batick (tecido pintado com motivos senegaleses) que de 20 euros passou a 10. Matar Faye dizia: “Puxa, mas esse não é o preço”. Mas aceitava a oferta que eu fazia. No Senegal, é como em Marrocos (e no ano passado já havia penado com isso): é você quem começa dando o preço que quer pagar no produto. Daí, o vendedor dá o dele. Você baixa o dele e ele aumenta o seu, seguindo assim até o consenso final. O problema é quando você não vai comprar e quer saber o preço só por curiosidade. Magoa o vendedor sair de lá sem uma sacola. Mas, no caso de Matar Faye, deu tudo certo.

Paguei quanto eu quis e consegui trazer o sorriso de volta ao seu rosto quando elogiei sua negociação: “Bom marchet! Good negociation”. Eu nem sabia o que estava falando e Matar Faye agradeceu muito, disse que meu francês era ótimo (risos) e pediu para tirar foto comigo porque eu era “très jolie”. Então tá, né? Vai entender esses senegaleses…

Saí do mercado com os panos e quatro CDs, dois de percussão e dois de cantoras que regravam músicas gringas na língua delas. Além das compras, dois grandes amigos: Matar Faye e Saw, que entendia o português (na verdade, o criolo) por ter morado na ilha de Cabo Verde. Foi ele quem me ajudou a negociar os discos e, depois, o taxi que nos trouxe de volta pra casa. Claro que antes tivemos que passar na loja de seu pai, outro fofo, que compreendeu eu não querer comprar nada.

Que canseira! Para relaxar, frutos do mar na pâtisserie. Hoje, conseguimos pegar o restaurante aberto. Não foi uma surpresa descobrir um espaço super transado (para os moldes de Dacar), pois na quinta, a dona do local abriu só pra gente a parte de cima de seu estabelecimento. Ana nos deu atendimento vip, prometeu me dar um presente até o dia de eu ir embora e ainda escreveu no meu bloco uma lista de lugares onde não podemos deixar de ir. Hapiness!

Fotos e vídeo: Pedro Palmeiro

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Um passeio pela simbólica Ilha de Goreé, de onde os escravos saíam para as Américas

Posted on 04 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

Sexta-feira, terceiro dia em Dacar.

Que azia!!! Nossa Senhora… Se eu soubesse que o “podrão” ia me causar esse mal-estar… Poucas horas de sono e a meta de ter que ir cedo até a Universidade Cheik Anta Diop, onde acontecerá o Fórum Social Mundial, para buscar nosso credenciamento, ajudaram a alimentar o mau humor. Antes de sair, um pão enrolado em jornal (que estava dobrado em cima de um engradado imundo de refrigerantes) vendido por Mamadou Sila, nosso amigo da venda da frente e um telefonema para avisar que não poderíamos esperar pela instalação da internet: “Sérge, temos que sair. Quando vier, nos ligue.”

Nada de credencial, nada de Sérge. Meio-dia, ele apareceu e nós corremos para casa. Nosso “guia” chegou, mas o “técnico”que instalaria os cabos, não. Após uns três telefonemas, Sérge descobriu que a pessoa em questão estava rezando. Hoje é sexta-feira, dia em que os muçulmanos fecham tudo para fazer sua prece. Deixamos Sérge com a chave e saímos de novo, para não perdermos mais tempo esperando a rede. Encontramos novamente a turma da Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada (conheça), iniciativa colaborativa entre mídias e articulistas independentes que fará uma cobertura do Fórum Social Mundial e com a qual estamos nos envolvendo aos poucos, e fomos para Goreé.

Na Ilha de Gorée, no século XVI a XVIII, os escravos aguardavam aprisionados a hora de serem mandados às Américas. Linda a viagem pelo Oceano Atlântico. Uma graça a organização dos moradores. No catamarã, mulheres vinham elogiar meu vestido (comprado no Marrocos em 2010) e conversar. Monica, Coco Chanel, Marinete… todas, no fim, pediam para que eu fosse visitar suas lojas. Durante o almoço, no Chez Kiki, onde conseguimos tomar a primeira cerveja (Gazelle) desse país 95% muçulmano, as mesmas e mais outras cinco – entre elas, Fatou, que propôs trocar meu vestido por algum de seus produtos – aguardavam para me carregar às compras. Avisei que precisaria continuar com o grupo e que, no fim de tudo, encontraria com elas. Nunca mais prometo nada que não possa cumprir.

Clima ruim na Maison des Esclaves (Casa dos Escravos). Era lá que homens, mulheres e crianças eram “guardados” até o dia de embarcarem no navio negreiro. Quartos apertados, solitárias, uma janelinha “micra” com vista para o mar… sem chance de fugir. Um horror! Recuperados, subimos para o mirante, onde o monumento a la Oscar Niemeyer Le Memorial de Goreé Du Castel servia de cenário para a pelada dos “moleques” da ilha. Vista linda para o mar.  Na descida, pausa para admirar e comprar uma tela linda exposta junto a outras embaixo dos baobás, árvores símbolo do país.

Primeiro, Monica. Prejú. Comprei dois tecidos. Agora vou ter que achar uma costureira… Depois, rumo ao mercado. Segui a ordem e fui até Coco Chanel, a segunda que me abordou durante a viagem no catamarã. Não adiantava dizer a ela que meus francos tinham acabado. Tive que dar euro em troca de um cordão para conseguir me livrar. Marinete ficou magoadíssima, porque meu dinheiro acabou. Disse que viu notas na minha carteira e que não adiantava eu dizer que era para meu jantar e minha volta para casa. Difícil me desvencilhar. Se tem uma coisa que não gosto é magoar alguém. Fatou me segurou e levou até sua loja. Eu dizia que não tinha dinheiro e ela insistia em abrir os tecidos, tirar os vestidos dos cabides e desdobrar blusas. Fui saindo de qualquer jeito e esbarrei ainda com sua mãe. Dei tchau e saí correndo. Eis que outras quatro me param.

Gritei por Coco Chanel, pedindo ajuda. “Diz a elas que te dei minha última nota”, supliquei. Coco veio e traduziu para mim o que a mãe de Fatou – que veio atrás – tentava dizer: “Ela está dizendo que você falou que vai pagar dez mil francos por essa blusa.” Eu? Falei que era linda e que eu pagaria se tivesse, mas não era o caso. Caramba… lembrei do cara que mentiu na porta do aeroporto e decidi dar uma lição na mulherada: “Eu fui justa e visitei cada uma das amigas que fiz, na ordem de abordagem. Vocês não estão sendo justas comigo e ainda mentem. Não estou gostando disso. Vocês não estão sendo minhas amigas.” Todas ficaram meio sem graça e resolveram me deixar em paz. Coco deu uma piscadinha e eu consegui sair da furada.

Fotos: Pedro Palmeiro e Christina Fuscaldo
Vídeo: Pedro Palmeiro

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A difícil arte de se comunicar no Senegal. Salve a mímica!

Posted on 03 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

Quinta-feira, segundo dia em Dacar.

Pedimos a Sérge para que Maguéye viesse nos ver depois de meio-dia. Mas às 9h, o chefe do receptivo que cuida dos turistas/visitantes de Dacar bateu na nossa porta. Mr. Seck, como o chamam os subordinados, também usava terno e era dono de uma educação exemplar. Simpático e profissional, sentou-se, perguntou como foi nossa viagem e colocou o recibo do aluguel na mesa. Enquanto eu e Pedro fazíamos contas, retirou-se para um cigarrinho na varanda. Pagamos, pedimos desculpas pela cara de sono, confirmamos ser Sérge o o contato em Dacar durante nossa estadia e nos despedimos. De volta à cama. Acordar de novo, só depois das duas da tarde.

Não deu para controlar o cansaço. No meio da tarde, ainda quebrados, fomos ao armazém que tem bem em frente ao nosso prédio. Mamadou Sila é um senegalês magrinho, meio curvado, que fala mal o francês. Perguntamos, por desencargo, se rolava de nos comunicarmos em inglês e chegamos a um acordo: nossa língua seria a mímica. Risos. “Vous tenes esponja?”, perguntei fazendo com a mão como se estivesse lavando um prato. Mamadou apontou para tudo, menos para uma esponja. Minutos se passarem e a mímica não funcionava. Eis que uma mulher entra na vendinha e vê a cena. “Eponge”, diz a moça, pegando logo acima de sua cabeça a esponja azul que nos ajudaria a lavar a louça do apê. Gargalhadas.

Pedi a Mamadou para passar para o lado de lá do balcão e eu mesma busquei nosso kit de sobrevivência em Dacar. Na hora do almoço, um macarrão à la “Larica Total”. Ih, esquecemos o sal. Pedro foi lá em Mamadou buscar. Na volta, mais risos: “Pedi açúcar e, quando ele trouxe, falei: ‘Azúcar, non. Salt!’”, disse, mostrando como fez com o dedo (infelizmente, impossível transcrever).

Ligamos pra Sérge e combinamos de esperá-lo para que ele pudesse instalar pra gente. Quando um senegalês diz: “Vou daqui a uma hora”, pode esperar três. Mas tem uma coisa interessante: se ele promete, ele cumpre. E Sérge foi, acompanhado de Badara, que até ali não havia explicado a que veio. Badara pediu para entrar no quarto, tirou o emaranhado de durex que trancava uma das portas do armário e procurou o “papier”. Nada. E nada também de entendermos a língua, às vezes mais afrancesada, às vezes totalmente dialética. Sérge disse que faltava um papel e que voltaria no dia seguinte de manhã. Pedimos para ele não nos deixar sem rede, afinal, precisaríamos trabalhar durante o Fórum Social Mundial, e fomos ao hotel Meridien tentar uma conexão gratuita. Junto ao nosso herói de guerra Marco Amarelo, que descobrira mais cedo a salvação, fingimos ser hóspedes para conseguir notícias do Brasil. Não recomendado para menores de 18, mas valeu a pena.

Acabamos a noite na pâtisserie Hapiness, comendo um “podrão” que levava carne, ovo, salada, batata frita e não identifiquei o que mais. Bom demais, mas no dia seguinte…

Fotos e vídeo: Pedro Palmeiro

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A chegada em Dacar e o reconhecimento do terreno

Posted on 02 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

Primeiro dia em Dacar. Quarta-feira.

Na verdade, primeira noite na capital do Senegal. Chegamos perto da meia-noite. Apreensão. Depois de uma tarde agradabilíssima em Madri, “un regalo” da companhia aérea, que nos deu essas oito horas para curtir a escala, é o momento de encarar na vida real as pesquisas pela internet e as dicas de turistas distantes. Difícil, no Rio de Janeiro, encontrar alguém que tenha passado por Dacar a passeio. Na rede, também não há abundância de informação. Destaque para o blog da mineira Cida dos Reis, que cobriu o III Festival Mundial das Artes Negras em dezembro de 2010 e deixou boas dicas (conheça). Enfim, o solo senegalês.

A Polícia Federal é mal encarada como a de qualquer outro país. Por que, né? É preciso mesmo amedrontar o visitante? Com meu passaporte italiano na mão, estava ainda mais assustada, afinal, todos os parceiros que viajaram comigo obtiveram o visto para brasileiros. Pelo telefone da Embaixada do Senegal em Brasília, Dolores dizia com seu sotaque que italianos não precisavam de um. Mas o moço “simpático” da PF implicou: “Não coloque que você tem dupla nacionalidade aqui senão vou ter que pedir seu visto.” Pensei: “Ih, babou!”. Mas me fiz de boba, pedi desculpas por não entender francês e por não saber preencher o papel – fingindo essa não ser minha 16ª viagem para fora do Brasil – e passei. Ufa!

Uma vez resolvida alguma pendência – como a retirada da bagagem, por exemplo – seguranças locais não permitem que se fique do lado de dentro do aeroporto, mesmo que o motivo seja a espera por seus acompanhantes. Enxotados para fora, é o momento de encarar os “maleteiros”. Mais de cinco agarraram meu carrinho e saíram levando. Dei uma corridinha, consegui recuperar a direção e pedi falando alto para que me deixassem resolver como sair dali.
Avistei o motorista que me esperava com meu nome na plaquinha. Um rapaz bem vestido aproveitou o lance para avisar que ele me ajudaria a levar as malas para o carro de seu pai. Acreditei. Lá na frente, perguntei a André, o motorista, se era legal trabalhar com o filho. Foi quando descobri que havia sido enganada. Segui brigando com o suposto filho até o carro, pois ele não largava minhas malas. E, quando chegamos, outro senegalês insistia em dizer a André que nós havíamos usado seu telefone celular. Mon Dieu!
Reservei um apartamento sem saber sobre as condições do mesmo. Por e-mail, Maguéye Seck dizia que era só escolher se eu queria um de dois ou um de três quartos. Pedi o de dois, afinal, os preços não são muito bons no Senegal. Tive que insistir para que me dissesse o endereço do local. Medo! “Afinal, quem é Maguéye Seck”? “Será que esse tal Dakar Multi-Service é mesmo credenciado ao Fórum Social Mundial”? Perguntas de Pedro, meu parceiro de trabalho e um dos editores deste site, me deixavam mais apreensiva ainda. Mas eu tinha que manter a pose de quem estava confiante de que tudo daria certo. Não estava fácil. Mais difícil foi quando, depois de rodar um bocado, o motorista parou o carro e disse que ia ligar para Sérge (quem?) para que nos levasse ao apartamento. Rio de Janeiro feelings: “Caraca, agora o chefe da máfia vem nos pegar e levar para a desova”, pensamos. Eis que entra no carro Sérge, que se apresenta, guia o motora e abre a porta de um prédio novo construído no meio de um nada.
Na Sacre Coeur II, a vida é boa. Na Villa, onde está nosso lar, foram construídos alguns prédios para receber os participantes do FSM. Tipo quando rolaram os Jogos Pan-Americanos no Rio… Mas, claro, não vimos isso desta maneira àquela hora da madrugada, naquele local ermo. Subimos para o quinto andar e, ao chegar no apartamento, demos de cara com um senhor de terno e óculos de grau. Bom, ali estava de fato o chefe da máfia. Que nada! Badara não disse a que veio, mas nos recebeu sorrindo, nos mostrou os cômodos do apartamento e como se usava cada torneira dos banheiros e cozinha. Em voz baixa, falei para Pedro que ele dormiria no meu quarto. Estávamos tão perdidos que a impressão era de que havíamos alugado quartos na casa de alguém. Mas não. Depois de nos explicar tudo, deram boas-vindas e foram embora. Eu e Pedro, cheios de medo, trancamos a casa toda e ainda colocamos cadeiras nas portas. Que besteira. Na mesma noite, com a chegada surpresa de Marco, nosso maior e melhor companheiro de viagem, descobrimos estar na Beverly Hills de Dacar.
Primeira visita a pâtisserie Hapiness. Esse foi o nome que demos a delicatessen 24 horas na qual duas senegalesas muito simpáticas trabalham. “Hapiness”, diziam a toda hora, tentando qualquer tipo de aproximação desses três forasteiros que não dominam o francês.

Fotos e vídeo: Pedro Palmeiro

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