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Lula critica G-20, ONU e destaca conquistas de seu governo no Fórum Social Mundial

Posted on 07 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

O Fórum Social Mundial 2011 mal começou em Dacar e já é possível dizer que a presença de Luiz Inácio Lula da Silva era a mais esperada do evento. Pelo menos umas das mais. No “Dia da África e Diáspora”, o ex-presidente da República do Brasil e o presidente do país anfitrião, Abdoulaye Wade, falaram sobre fome e sobre o papel geopolítico da África. Lula criticou países do (1) G-20, (2) a Organização das Nações Unidas (ONU) e (3) os que “deram instruções e não evitaram a crise”.

1) “Não pensem que lá tem sensibilidade para o problema da fome, para os pobres do mundo. Só fomos chamados para as reuniões dos países ricos porque eles estavam em crise e precisavam da nossa ajuda.”

2) “A governança mundial está enfraquecida. O mundo está mal representado. Não tem ninguém pra resolver conflitos. A ONU poderia resolver, se fosse representativa.”

3) “É cada vez mais forte a consciência de que o Consenso de Washington faliu. Aqueles que com arrogância nos davam instruções não evitaram a crise. Hoje somos parte essencial e incontornável da solução da crise internacional.”

Lula destacou as conquistas do Brasil durante seu governo: 15 milhões de empregos, o maior salário mínimo em 40 anos, o acesso de 21 milhões de jovens pobres ao ensino superior, mais vagas nas universidades públicas e o reflorestamento.

“Nosso êxito pode servir de estímulo à construção de um caminho alternativo para outras nações na busca de um desenvolvimento sustentável e igualidade social. A partir de 2003, o Brasil resgatou sua soberania política e econômica, afastou-se do neoliberalismo e adotou um novo modelo de desenvolvimento, que nos permitiu dar um salto histórico, distribuindo renda, conhecimento e poder. Nesse período, tiramos 28 milhões de pessoas da linha da pobreza e elevamos outras 38 milhões à classe média no maior processo de mobilidade social de nossa história. Saldamos parte da nossa dívida social e, ao mesmo tempo, pavimentamos o caminho do país para um novo futuro, inclusive em termos científico e sociológicos. Basta dizer que geramos 15 milhões de novos empresgos formais, alcançamos o maior salário mínimo dos últimos 40 anos, levamos energia elétrica a populações mais longínquas, promovemos uma verdadeira revolução produtiva na agricultura familiar, garantimos o acesso de 21 milhões de pobres ao ensino superior, dobramos o número de vagas nas universidades públicas, tudo isso acompanhado de uma sólida política ambiental, que criou 74% das novas florestas protegidas no planeta da década passada.”

Foto: Christina Fuscaldo

Leia a reportagem de Marcel Gomes, publicada no site Carta Maior (clique aqui):

Lula diz que expansão agrícola é chave para desenvolvimento da África

Bastante aplaudido por brasileiros em debate no FSM, Lula defendeu a criação do Estado Palestino, apoiou a revolta popular no Egito, criticou os países ricos e afirmou que as savanas africanas, como o cerrado brasileiro, poderiam dar suporte ao avanço da agricultura e da segurança alimentar

Marcel Gomes

Dacar, Senegal – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (7) que as nações africanas deveriam apostar no desenvolvimento agrícola como forma de garantir soberania alimentar e gerar riquezas por meio da exportação dos produtos.

Em sua primeira viagem internacional após deixar a presidência do Brasil, Lula veio ao Senegal para participar do Fórum Social Mundial em uma mesa de debates sobre “A África na geopolítica mundial”, na qual falou ao lado do presidente senegalês, Abdoulaye Wade.

Ao longo de sua exposição, bastante aplaudida por dezenas de ativistas brasileiros, Lula defendeu a criação de um Estado Palestino, apoiou a revolta popular no Egito, criticou as potências econômicas e o neoliberalismo e exaltou os resultados de seus governos (2003-2010), sobretudo no que diz respeito ao combate à miséria.

Após voltar ao Brasil, o ex-mandatário brasileiro fará outra viagem internacional neste mês: a convite, visitará o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que enfrentará eleições em 2012.

Em sua fala no Fórum, Lula afirmou que as nações africanas precisam cortar os laços de dependência que ainda mantêm com as ex-metrópoles. Para isso, a questão alimentar seria essencial. “Não há soberania efetiva sem segurança alimentar”, disse. Para o ex-presidente, a experiência brasileira na área agrícola, ainda que não seja possível a “transposição de modelos”, revela que é viável a expansão da produção de alimentos em terras pouco valorizadas.

“Até os anos 70 o cerrado brasileiro era considerado um deserto verde, sem condições de sustentar uma agricultura produtiva”, lembrou Lula. Mas, graças à atuação do Estado no fomento à pesquisa, essas regiões “tornaram-se grandes fornecedoras de alimentos para o mundo e viabilizou-se a política de erradicação da fome em nosso país”.

Para ele, as savanas africanas poderiam repetir a história do cerrado no continente. Segundo Lula, as savanas se espalham por mais de 25 países da África e, com investimento em pesquisa, seria possível desenvolver seu potencial agrícola.

Hoje, apenas 10% da área das savanas possuem cultivos agrícolas. Na opinião do brasileiro, a elevação desse índice ajudaria a reduzir o drama da fome no continente, que poderia se tornar um grande fornecedor de alimentos no mundo. “Se o território dos países ricos está escasso para produzir alimentos, se há mais africanos, chineses, indianos, coreanos e latinos comendo, onde há terra para produzir alimento?”, questionou, para em seguida responder: “A África e a América Latina podem e devem suprir os alimentos que são um produto essencial para a vida humana”.

Lula criticou ainda os subsídios agrícolas dos países ricos e a atual escalada de preços das commodities no mundo, afirmando que a culpa é da especulação. “Não há nenhuma explicação para o preço do petróleo superar 100 dólares”, disse.

Em ataque direto à ciranda financeira, o ex-mandatário lembrou que, apesar de sempre faltarem recursos para programas de erradicação da fome, sobraram fundos para “resgatar bancos e instituições financeiras na recente crise financeira internacional”.

Para o brasileiro, os países africanos precisam alterar os modelos de cooperação internacional vigentes e não mais aceitar a imposição de modelos externos.

Revoltas populares

O ex-presidente brasileiro registrou pleno apoio às revoltas populares que ocorrem no Norte da África e no Oriente Médio – segundo ele, causadas pela pobreza, pela dominação de tiranos e pela submissão das políticas internas à agenda das grandes potências. E avaliou que a criação de uma cultura de paz – um dos temas históricos do Fórum Social Mundial – não dependeria apenas do fim do comércio de armas, mas sobretudo do combate à fome, à desigualdade e ao desemprego.

Além de criticar a intolerância étnica, cultural e religiosa, Lula mais uma vez atacou o modus operandi dos países ricos, em especial a política da guerra preventiva dos Estados Unidos. Disse que, sem ingerências externas, a África teria mais chances de acelerar seu desenvolvimento econômico e social. “Nos 29 países que visitei como presidente, comprovei a vitalidade deste continente que aqui reafirma sua diversidade ética e cultural”, disse.

Para ele, a inclusão econômica de milhões de africanos pode ser uma estratégia para superação mais rápida da crise financeira internacional – assim como a expansão do mercado interno brasileiro evitou a intensificação dos problemas no país.

Ao terminar sua fala, Lula afirmou que o impasse em 2008 sobre as negociações comerciais de Doha, conduzidas pela Organização Mundial do Comércio, não foi resolvido até hoje por obra dos Estados Unidos, que se viam em eleições internas. Lula defendeu o engajamento dos ativistas nesse processo de negociações, bastante contestado por organizações que discutem o tema agrícola no Fórum Social Mundial.

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Abertura do Fórum Social Mundial teve ativistas na marcha e Evo Morales no palanque

Posted on 06 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

O Fórum Social Mundial começou neste domingo arrastando cerca de 50 mil pessoas às ruas de Dacar. Com faixas, gritos de guerra e muito a falar, às 14h, dezenas de delegações do mundo inteiro saíram em passeata do Triangule Sud (onde está situada a Grande Mesquita) à Universidade Cheik Anta Diop, cada uma delas divulgando sua luta. No pátio da faculdade, a única da capital do Senegal, um palco montado serviu de palanque para representantes de diversos países (Gilberto Carvalho por Dilma Roussef, além de tunisianos, egípcios etc) darem uma prévia do que será discutido no décimo fórum. O maior destaque da tarde ensolarada deste domingo foi Evo Morales, que fez um discurso de meia hora defendendo, entre outras questões, a nacionalização dos recursos naturais. O presidente da Bolívia afirmou que o capitalismo agoniza e, sobre os protestos populares, em especial os que estão acontecendo no Egito, que há uma “rebelião” nos povos árabes “contra o imperialismo norte-americano.

“O capitalismo agoniza no mundo frente à rebelião dos povos. O capitalismo tem crise financeira, crise energética e nos traz crise alimentar. E por isso os pobres, sejam agricultores, indígenas, trabalhadores, pobres das cidades, têm que pagar pela crise do capitalismo”, declarou Morales.

“As lutas sociais dos povos são indivisíveis. É o mesmo combate pela dignidade, justiça e igualdade. O que aconteceu na Tunísia não é independente das lutas dos outros povos. No último mês, os tunisianos lutaram por sua dignidade, liberdade, por trabalho e contra a corrupção, contra a ditadura selvagem que durou 23 anos. Graças a luta, a coragem e a solidaridade, graças a um povo jovem que não recuou diante dos tiros de bala, da repressão e dos cacetetes, os povos que são aqui representados devem fazer as mesmas coisas caso tenham em seus países regimes autoritários”, declarou o advogado tunisiano Trifil Bassem à equipe do site Carta Maior (conheça) logo após fazer seu discurso no palco.

Pela manhã, a imprensa alternativa se reuniu na biblioteca da universidade para combinar o esquema de divulgação dos eventos programados para acontecer no Fórum Social Mundial. A programação ainda não saiu impressa. Mas já se sabia que Evo Morales faria um discurso – e talvez uma coletiva de imprensa pequena – e que Lula havia confirmado presença na programação do “Dia da África e Diáspora”, na segunda-feira. O ex-presidente, aliás, é exaltado toda vez que um senegalês ouve a palavra “Brasil”. Lula é famoso em todo o mundo e, no Senegal, sua presença é mais que esperada. Durante a abertura do FSM, seu nome foi citado algumas vezes no palanque. Na área reservada para a imprensa logo à frente do palco, jornalistas do mundo todo (Mali, Camarões, Espanha, França, Itália) procuravam brasileiros para confirmar dia, hora e local do encontro com Lula.

Ainda na biblioteca, fomos convidados a reforçar o time que cobrirá todo o FSM para o site Carta Maior. Durante a marcha, entrevistas com ativistas de alguns dos 120 países participantes. Grupos em defesa das mulheres, das crianças, dos trabalhadores rurais, da cultura africana e muito mais. O Fórum Social Mundial é o evento no qual movimentos sociais e organizações civis debaterão alternativas para um mundo melhor, aprofundando suas ideias, formulando propostas e compartilhando experiências. A cada declaração, uma inspiração para se pensar em tudo que parece errado pelo mundo.

Um marroquino reclamava da briga de seu país com a Argélia pelo domínio do deserto do Saara. Comentei que o Brasil também há anos tenta convencer os Estados Unidos de que a Amazônia é nossa. Uma italiana dizia que veio ao FSM para tentar se desintoxicar de Berlusconi. E um integrante do Movimento dos Trabalhores Sem Terra – o movimento de luta pela reforma agrária – explicava que a representação do grupo no evento reforçaria ainda mais a luta por justiça social no Brasil.

Ao final, show do Ilê Ayê e de vários grupos senegaleses.

Fotos: Bia Barbosa, Christina Fuscaldo e Pedro Palmeiro

Acompanhe a cobertura do Fórum Social Mundial 2011 por:

Carta Maior

Ciranda

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