Archive | Entrevistas

Fórum Social Temático 2012 discute no Sul o papel da sociedade civil na Rio+20

Posted on 05 fevereiro 2012 by Christina Fuscaldo

Cofundador do Fórum Social Mundial, Chico Whitaker explica o que a Cúpula dos Povos quer levar à conferência da ONU e relembra a história do evento (com vídeo)

Com o tema “Crise Capitalista, Justiça Social e Ambiental”, o Fórum Social Temático 2012 serviu de palco, de terça-feira a domingo (24 a 29/01), no Rio Grande do Sul, para encontros, debates, discussões e elaborações de ideias para a Rio+20. Junto a nomes ligados ao governo e de diversas organizações, que atuaram como coadjuvantes, os protagonistas foram os membros da sociedade civil, ligados à Cúpula dos Povos, grupo focado no encaminhamento de ideias ao que chamam de Rio+20 dos Povos. São cidadãos comuns, ligados a movimentos, coletivos e organizações não-governamentais que pretendem levar propostas alternativas à negociação formal que será conduzida pelos governos do mundo todo durante a conferência da Organização das Nações Unidas (ONU), que acontecerá entre 13 e 22 de junho, no Rio de Janeiro.

Durante o debate na mesa “Rumo à Rio+20 dos Povos: Democracia Real já!”, o membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz (CNBB) Francisco Whitaker Ferreira pediu atenção para aqueles que não estão na luta por um mundo melhor.

“Os que dominam e escravizam o mundo representam um por cento. Só que, analisando os números, percebemos que nós que protestamos e queremos mudanças também somos um por cento. Os 98% que sobram são aqueles que podem realmente mudar alguma coisa, só que quase metade disso vive lutando para sobreviver. Essas pessoas estão insatisfeitas e não querem ter coisas, mas ser gente e viver em comunhão com eles mesmos e com seus semelhantes. Há uma camada chamada classe média que é formada por pessoas que podem consumir. É com essas pessoas que precisamos falar, passar as informações que temos e explicar o que está acontecendo. Esse é o processo do Fórum Social Mundial”, declarou Chico.

Cofundador do Fórum Social Mundial, cuja primeira edição aconteceu em Porto Alegre, em 2001, Whitaker participou de diversas mesas, debates e plenárias durante o Fórum Social Temático: “O Fórum Social Mundial passou por várias etapas. Ele começou com a proposta de discutir o que ia ser discutido no Fórum Econômico Mundial, em Davos, de que tudo se resolve pela lógica do mercado. Mas essa proposta não é verdadeira. Nossa ideia era criar um mundo diferente na primazia da solidariedade e das necessidades humanas. Não podemos transformar tudo, até mesmo a saúde das pessoas, em mercadoria. Essa proposta foi feita no fórum de 2001, que foi muito bem sucedido. De lá pra cá, fizemos o segundo, o terceiro e, quando chegou no quarto, já tivemos que fazer fora do Brasil (em 2004, o fórum foi realizado na Índia). E, agora, acontece pelo mundo afora, com fóruns regionais, nacionais e locais.”

Considerado uma etapa preparatória para o Rio+20 dos Povos, o Fórum Social Temático foi realizado na capital do Rio Grande do Sul e em cidades da Região Metropolitana (Gravataí, Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo), com direito a presença da presidenta Dilma Rousseff e de diversos ministros, inclusive o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República do Brasil, Gilberto Carvalho. Nomes como o do teólogo brasileiro, escritor e professor universitário Leonardo Boff, do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil e da ambientalista Marina Silva também participaram das discussões sobre a Cúpula dos Povos. Iara Pietricovsky, membro do colegiado do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), e Roberto Jakubaszko, membro da comissão organizadora do Fórum Social Temático, também levaram pensamentos ao FST. A principal crítica levantada durante os debates foi em relação ao conceito de economia verde.

“A economia verde vai repetir a lógica do capitalismo, só que privatizando os bens comuns que temos. A água, o ar… Esse é um fórum social local, que também é um fórum temático porque tem um tema para ser aprofundado. E esse tema é a preparação da participação da sociedade civil na conferência Rio +20. Discutimos aqui o que deveria ser levado para o Rio paralelamente à conferência da ONU. Isso acontece 20 anos depois da Eco 92, conferência na qual se começou a discutir ecologia e meio ambiente. Uma das questões é o que chamam de economia verde, que não é nada além de pintar de verde tudo o que já se faz”, critica Chico.

Carta da Terra visa uma sociedade mais justa, sustentável e pacífica

Fórum Mundial de Educação 2012 discutiu a democracia nas escolas

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Fórum Mundial de Educação 2012 discutiu a democracia nas escolas

Posted on 05 fevereiro 2012 by Christina Fuscaldo

Diálogo entre movimentos e governos ocorreu durante o Fórum Social Temático 2012

Junto com a criação do Fórum Social Mundial, em 2001 surgia também o Fórum Mundial de Educação (FME), um espaço para o diálogo entre organizações, movimentos e membros de governos sobre a educação popular. Durante o Fórum Social Temático 2012, realizado no Rio Grande do Sul entre 24 e 29 de janeiro, o FME discutiu Justiça Social e Ambiental, enfocando a importância da democratização nas escolas.

“O papel fundamental da escola é facilitar a participação das pessoas de forma que a aprendizagem seja uma vivência comunitária e não só uma competência individual”, declarou o italiano Alessio Surian, membro do Conselho Internacional do Fórum Mundial de Educação.

Formado por sindicatos, federações, conselhos diversos, associações, colegiados e muitas outras organizações, o Conselho Internacional coordena as principais atividades e programas dos diferentes fóruns regionais e mundiais. A função é promover, através de relações internacionais, uma articulação mundial de países e entidades.

“Tive a honra de organizar a primeira atividade do Fórum Social Temático, com enfoque na Justiça Social e Ambiental. Acho fundamental democratizar as escolas”, analisou Alessio, professor de Comunicação e de Planejamento da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Padova.

Para Surian, a educação profissional e técnica pode contribuir para a formação de pessoas com maior capacidade de reflexão. O professor italiano vê no Brasil um potencial para essa inclusão do indivíduo no mundo do trabalho:

“Achei interessante o esforço do Brasil na educação profissional e técnica nos últimos anos, com a criação de institutos e cooperativismos”.

Com suas atividades concentradas no campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o FME contou com a presença da ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, da secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, Maria do Pilar Lacerda, e de muitos outros nomes, como Emir Sader e Boaventura Souza Santos. Entre os temas debatidos estava as conseqüências da crise capitalista para o mundo da educação.

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Rapper Awadi participa do Fórum Social Mundial 2011

Posted on 16 março 2011 by Pedro Palmeiro

O rapper Awadi participou do encerramento do FSM 2011, com um show aberto ao público na universidade Cheikh Anta Diop, em Dacar. Durante uma coletiva, o cantor falou sobre política internacional e o reflexo da queda do presidente do Egito, Hosni Mubarak. Assista:

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Marcos Palmeira divulga projeto agroecológico durante o Fórum Social Mundial em Dacar

Posted on 02 março 2011 by Pedro Palmeiro

Uma plantação circular com um pequeno galinheiro no meio chamava a atenção de quem passava no campus da universidade Cheikh Anta Diop, em Dacar. Foi desta forma que Marcos Palmeira marcou sua presença no Fórum Social Mundial. De trancinhas senegalesas no cabelo, o ator divulgou o projeto PAIS (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável): o sistema de produção agroecológica integrada e sustentável utiliza energia solar e permite maior autonomia para os produtores rurais.

- Esse projeto tem tudo a ver com a África, pois a gente traz uma tecnologia social que além de suprir a carência de alimentos, também permite que as famílias gerem renda com a produção. A identificação com o povo africano foi incrível, pois muitos querem saber como podem ter isto. No Senegal, só tem três meses de chuva, então, também há carência de água. Nós trouxemos um modelo de bomba de sucção que perfura até 140 metros. Aqui, em 20 metros de profundidade, você já tem água. Existe uma riqueza aqui por baixo que também não está sendo bem explorada - explica o ator.

 
Criado em 2004, o projeto se baseia em canteiros circulares com um galinheiro central. Em uma mesma unidade, os agricultores podem cultivar diversos tipos de hortaliças, legumes, carnes, ovos e frutas. O modelo estimula o desenvolvimento sustentável e o uso da agricultura orgânica por meio de um processo produtivo sem uso de agrotóxicos, trabalhando o reflorestamento e, consequentemente, preservando o meio ambiente.
 
No Brasil, dez mil famílias já foram beneficiadas com o projeto, que foi idealizado pelo engenheiro agronômo senegalês Aly Ndiaye, sócio de Marcos na fazenda Vale das Palmeiras. O objetivo da dupla é que o PAIS se torne uma política pública para acabar com a fome e que o país se torne um parceiro na África. A ideia é que, juntos, Brasil e Senegal saiam da condição de terceiro mundo.
 
- O projeto é bastante simples e de grandes resultados. Você realmente vê o cara sair de uma situação de miséria e não passando para uma situação de pobreza, mas sim entrando no mercado consumidor, produtor, tendo cidadania e levando uma vida digna. Eu acredito em iniciativas simples e não em projetos bilionários. É pensar globalmente e agir localmente – conclui Palmeira.
Assista ao vídeo com Marcos Palmeira explicando o projeto PAIS

Fotos: Rodrigo Peixoto

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Netinho de Paula quer ser Prefeito de São Paulo

Posted on 23 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

Durante sua passagem por Dacar, capital do Senegal, que sedia desde domingo o Fórum Social Mundial 2011, Netinho de Paula reafirmou seu distanciamento da música e declarou que está em seus planos se tornar Prefeito de São Paulo.

- Eu estou mais voltado para as questões políticas. Estou muito determinado, dependendo de como as coisas caminharem, a disputar no próximo ano uma vaga na Prefeitura de São Paulo – declarou, nesta segunda-feira, durante sua participação na programação do “Dia da África e Diáspora”.

Assista ao vídeo de Pedro Palmeiro com Netinho de Paula

Netinho marcou presença na marcha de abertura do Fórum Social Mundial, no domingo, e no dia seguinte, assistiu ao debate sobre fome e geopolítica da África com o presidente do país anfitrião, Abdoulaye Wade, no qual o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva foi ovacionado em um auditório lotado. O cantor e político brasileiro, que nas últimas eleições concorreu a uma vaga no Senado, contou que veio a Dacar representando a Câmara Municipal de São Paulo, com o intuito de tentar aproximar comercialmente seu estado da capital do Senegal:

- Vim junto com o pessoal do Partido Comunista, acompanhando a comitiva do ex-presidente Lula, e estivemos ontem na Embaixada, em um jantar com o presidente do Senegal, discutindo essa aproximação. Já há trocas entre empresários, existem construtoras, empresas de engenharia e de desenvolvimento de software… Também viemos fomentar a parte cultural, que está lenta.

O cantor destacou que o PC do B (Partido Comunista do Brasil) apoiou o III Festival Mundial das Artes Negras, que selou o encontro de artistas senegaleses com brasileiros em Dacar em dezembro de 2010. Ele lamentou não ter participado da festa e reforçou a necessidade de se aproximar mais a cultura dos dois países.

- Não pude vir porque estava em período eleitoral. Artistas daqui vão se apresentar no Brasil, mas ainda é muito pouco. Falta mais. Culturalmente, tem muito a fazer. Não adianta um festival acontecer isoladamente. A gente tem discutindo como incrementar isso e como o município de São Paulo pode ativamente criar essa relação com a África – disse.

Mergulhado na política, Netinho declarou que música, agora, é com quatro dos seus sete filhos. Ágatha, de 17 anos, Eduardo, 16, Vinícius, 18, e Levi, 22, lançam no próximo mês o álbum de estreia do grupo Os De Paula.

- Meu lado artístico está sendo incentivar meus filhos, os De Paula, que estão lançando CD mês que vem. É um quarteto que mistura black music com música brasileira muito bacana. Eles cantam Tom Jobim, Elis Regina, Gilberto Gil – adianta.

E o pagode…

- Também mistura. Não da pra negar, né? Mas eles falam que são mais conservadores que eu.

Fotos: Pedro Palmeiro

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Jovens senegaleses abrem mão da diversão para trabalhar como voluntários no FSM

Posted on 17 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

Rohni acena entre os colegas / Foto de Rodrigo Peixoto

No wolof, uma das línguas do Senegal (a mais falada junto ao francês), “teranga” quer dizer “legal”. Segundo um dos dois mil jovens voluntários do Fórum Social Mundial 2011, que aconteceu em Dacar entre os dias 6 e 11 de fevereiro, todo senegalês leva consigo esse adjetivo. Birame Diouf, 25 anos, é estudante de inglês da universidade Cheikh Anta Diop, que sediou a 11ª edição do evento dedicado a discussões por um mundo melhor (conheça a história do voluntário). Por acreditar nessa máxima, Rohni – como é chamado pelos mais íntimos – jogou-se no voluntariado, e descobriu que há pessoas legais em todo mundo.

- É a primeira vez que trabalho como voluntário e já estou rezando para que possa fazer isso novamente no futuro. Estou tendo a possibilidade de treinar o inglês, encontrar gente do Brasil, da França, do Canadá, dos Estados Unidos, de todo mundo. É difícil dizer qual povo é mais legal porque, aqui no Fórum, todo mundo tem o mesmo objetivo: ser legal. Fora do Fórum, espero que os senegaleses sejam considerados os mais legais – brincou Rohni em entrevista durante o expediente.

Definitivamente, os voluntários do Fórum Social Mundial 2011 eram legais. Pacientes com participantes ou jornalistas afoitos por informações e dispostos a ajudar os engolidos pela desorganização desta edição do evento, eles abriram mão do tempo em que podiam estar descansando, namorando ou até mesmo estudando para, de graça, correr atrás de seus ideais. Sem receber um tostão pelo trabalho duro que exerceu durante o FSM, a jovem Mama Kany Ndiaye, 25 anos, ficou longe do namorado todos esses dias por estar buscando pontos para uma consequente aprovação no mestrado. Já a enfermeira NDeye Bineta Sarr, 22 anos, quase não dormiu, afinal, eram mais de dez horas de trabalho por dia. Mas pelo menos pôde praticar seu esporte preferido: ajudar pessoas.

- Estou muito feliz de trabalhar no Fórum Social Mundial, porque ele é senegalês, ele é nosso. E porque eu gosto de ajudar as pessoas. Meu trabalho lá fora é esse, só que no hospital. E, aqui, também. Fico no espaço cyber ensinando ou ajudando quem quer se conectar a internet – explicou NDeye Bineta Sarr.

Os objetivos de Mama Kany Ndiaye, aluna de uma escola que forma professores, vão muito além de um diploma de mestre, e podem chocar aqueles que esperam um comportamento clichê de uma jovem muçulmana:

- Quero me tornar uma mulher independente, não depender de marido e ser alguém por mérito meu.

Os tempos mudaram e assim é a maioria dos jovens do Senegal. Bem diferentes de seus antepassados, eles são mais livres, conectados e conscientes do que se passa dentro e fora da África. Nesta edição do FSM, muitos olhares foram voltados para os problemas do continente.

- Quero poder levar isso tudo que estou aprendendo no Fórum Social Mundial para outros senegaleses – declarou Mama Kany Ndiaye, que trabalhava dando informação a quem passasse pela biblioteca.

Tanto tempo dentro da universidade Cheikh Anta Diop fez com que esses jovens abandonassem seu divertimento durante o cansativo período em que aconteceu a 11ª edição do FSM. A festa era lá mesmo, onde voluntários se conheciam, conversavam, ouviam música em fones de ouvido e faziam amizade com qualquer gringo que chegasse com mais simpatia. Mas a rotina era dura: de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Alguns ainda conseguiram conciliar a ralação com os estudos. Foi o caso do estudante de direito Omar Guéye, 24 anos. Cansado, mas sempre sorrindo, sua função era dar instruções a quem se perdesse pelo enorme campus da única universidade pública de Dacar:

- Se você é estrangeiro e não mora aqui, mas pagou para fazer essa viagem, meu país é obrigado a te fazer o bem. Vou a qualquer lugar se for para ajudar alguém. Ando o dia inteiro e, de noite, tento não perder aula.

Omar é roomate de Ronhi e, assim como o parceiro, tem um grande sonho: voltar a trabalhar como voluntário em eventos sociais.

- Meu maior sonho é trabalhar em organizações internacionais e estar novamente em um Fórum Social Mundial, mesmo que ele seja em outro país da África ou no Brasil – disse Omar.

Rohni engrossou o coro “teranga”:

- Temos todos que ir na mesma direção, porque todos viemos de Deus, de Alah. É um mundo novo pra mim. Sou um revolucionário que quer fazer do Senegal um lugar melhor. O mundo, na verdade. Mas sei que sozinho não vou conseguir. Quem sabe com esses amigos que fiz no Fórum?!

Foto: Rodrigo Peixoto

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Conheça Rohni, um senegalês apaixonado por Ronaldinho Gaúcho que trabalhou como voluntário no FSM

Posted on 16 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

No pátio em frente à biblioteca da universidade Cheikh Anta Diop, onde diariamente os voluntários tiravam dúvidas de dezenas de pessoas durante o Fórum Social Mundial 2011, dava pra ver que Birame Diouf se destacava. Andar gingado, sorriso constante no rosto e inglês com sotaque porém fluente, o jovem senegalês parecia sempre o mais à vontade entre os colegas, os estrangeiros e também os estudantes que circulavam por ali. Rohni, como é chamado por seus amigos, era mesmo o mais popular dos voluntários daquele setor. Durante um passeio guiado pelo próprio pelos locais que ele freqüenta dentro da universidade e no alojamento onde pretende morar até seu retorno a Mbour, cidade onde nasceu e onde está sua família, descobrimos que Rohni é aquele com quem todo mundo para para falar.

- Sou conhecido porque jogo bem futebol – avisou Rohni ao cruzar a rua que separa os prédios da faculdade dos prédios alojamento.

O apelido é uma homenagem ao craque brasileiro Ronaldinho Gaúcho, de quem sabe tudo. E, assim como o ídolo, Rohni quer ganhar o mundo. De forma mais discreta:

- Estudo inglês na universidade porque essa língua é a chave para o mundo. Se você quer ser alguém, tem que estudar inglês. Não sei o que vou fazer da vida ainda, mas rezo para que Deus me dê tudo de melhor: um bom trabalho, uma esposa e dinheiro.

Birame Diouf é muçulmano, mas faz parte do time de homens que respeitam as mulheres. No alcorão, elas estão rebaixadas. No Senegal, elas conquistaram espaço e hoje têm o mesmo valor que o sexo oposto.

- Hoje em dia eles sabem que há igualdade entre homens e mulheres. Eles sabem que ambos podem fazer as mesmas coisas – conta Rohni.

Solteiro por opção, ele acredita ser um bom partido. Mas diz que não vai ser em uma balada que vai encontrar o grande amor:

- Nas festas, você perde seu tempo, delibera sua mente e se torna outra pessoa. Sou um homem bom e, no futuro, quero casar. Mas, por enquanto, meu foco são os estudos. Não quero namorar agora, porque não tenho tempo para fazer nada.

No espaço que divide com mais sete amigos, no prédio A do alojamento estudantil da Cheik Anta Diop, é impossível se concentrar e estudar. Pequeno, o quarto tem apenas duas camas, cada uma dividida por dois. Os outros quatro estudantes, inclusive ele, dividem o chão em duas colchonetes. Cada um arruma “a casa” uma vez por semana e sua roupa é lavada por ele aos domingos. Otimista, ele tira onda por estar no prédio mais histórico da faculdade.

- Militares franceses se instalaram aqui na época da Segunda Guerra Mundial e só saíram quando houve a independência do Senegal, na década de 60. Esse é o maior prédio do alojamento, com 463 quartos – orgulha-se.

Ao todo, são mais de três mil estudantes circulando pelos longos e labirínticos corredores do prédio A. Os banheiros são espalhados pelos andares e a maior dificuldade é lidar com o frio noturno que assola Dacar nessa época do ano e com o calor senegalês que faz de dia e nas outras noites do ano.

- Tomar banho com esse frio é muito difícil. Quando faz calor, a gente sofre no quarto – diz.

Sempre com um fone pendurado no pescoço (às vezes, encaixado no ouvido), Rohni escuta música senegalesa por amor à pátria e americana para praticar o inglês. Ele acredita que o povo africano é dos mais fortes, inteligentes e legais do mundo e que seu continente será salvo por sua geração:

- Muitas pessoas de muitos países ricos vêm até a África pedir ajuda, por termos riquezas naturais. O Senegal é um país pobre, mas acredito que no futuro a nova geração vai ajudar a melhorar este mundo.

Entre uma filosofia de paz e um perrengue na faculdade, como a fila quilométrica que enfrenta quando quer almoçar, Rohni bate uma bola com os amigos e sonha em esbarrar com o ídolo:

- Meu grande sonho é ver Ronaldinho de Moraes Assis, que nasceu em Porto Alegre, em 1960. E meu segundo sonho é fazer sucesso na minha vida, ser bem-sucedido em minha religião, ter uma esposa e me orgulhar de tudo que fiz na juventude.

De sua aclamada atuação no Fórum Social Mundial, você já pode se orgulhar, Rohni.

Fotos: Rodrigo Peixoto

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Lula critica G-20, ONU e destaca conquistas de seu governo no Fórum Social Mundial

Posted on 07 fevereiro 2011 by Christina Fuscaldo

O Fórum Social Mundial 2011 mal começou em Dacar e já é possível dizer que a presença de Luiz Inácio Lula da Silva era a mais esperada do evento. Pelo menos umas das mais. No “Dia da África e Diáspora”, o ex-presidente da República do Brasil e o presidente do país anfitrião, Abdoulaye Wade, falaram sobre fome e sobre o papel geopolítico da África. Lula criticou países do (1) G-20, (2) a Organização das Nações Unidas (ONU) e (3) os que “deram instruções e não evitaram a crise”.

1) “Não pensem que lá tem sensibilidade para o problema da fome, para os pobres do mundo. Só fomos chamados para as reuniões dos países ricos porque eles estavam em crise e precisavam da nossa ajuda.”

2) “A governança mundial está enfraquecida. O mundo está mal representado. Não tem ninguém pra resolver conflitos. A ONU poderia resolver, se fosse representativa.”

3) “É cada vez mais forte a consciência de que o Consenso de Washington faliu. Aqueles que com arrogância nos davam instruções não evitaram a crise. Hoje somos parte essencial e incontornável da solução da crise internacional.”

Lula destacou as conquistas do Brasil durante seu governo: 15 milhões de empregos, o maior salário mínimo em 40 anos, o acesso de 21 milhões de jovens pobres ao ensino superior, mais vagas nas universidades públicas e o reflorestamento.

“Nosso êxito pode servir de estímulo à construção de um caminho alternativo para outras nações na busca de um desenvolvimento sustentável e igualidade social. A partir de 2003, o Brasil resgatou sua soberania política e econômica, afastou-se do neoliberalismo e adotou um novo modelo de desenvolvimento, que nos permitiu dar um salto histórico, distribuindo renda, conhecimento e poder. Nesse período, tiramos 28 milhões de pessoas da linha da pobreza e elevamos outras 38 milhões à classe média no maior processo de mobilidade social de nossa história. Saldamos parte da nossa dívida social e, ao mesmo tempo, pavimentamos o caminho do país para um novo futuro, inclusive em termos científico e sociológicos. Basta dizer que geramos 15 milhões de novos empresgos formais, alcançamos o maior salário mínimo dos últimos 40 anos, levamos energia elétrica a populações mais longínquas, promovemos uma verdadeira revolução produtiva na agricultura familiar, garantimos o acesso de 21 milhões de pobres ao ensino superior, dobramos o número de vagas nas universidades públicas, tudo isso acompanhado de uma sólida política ambiental, que criou 74% das novas florestas protegidas no planeta da década passada.”

Foto: Christina Fuscaldo

Leia a reportagem de Marcel Gomes, publicada no site Carta Maior (clique aqui):

Lula diz que expansão agrícola é chave para desenvolvimento da África

Bastante aplaudido por brasileiros em debate no FSM, Lula defendeu a criação do Estado Palestino, apoiou a revolta popular no Egito, criticou os países ricos e afirmou que as savanas africanas, como o cerrado brasileiro, poderiam dar suporte ao avanço da agricultura e da segurança alimentar

Marcel Gomes

Dacar, Senegal – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (7) que as nações africanas deveriam apostar no desenvolvimento agrícola como forma de garantir soberania alimentar e gerar riquezas por meio da exportação dos produtos.

Em sua primeira viagem internacional após deixar a presidência do Brasil, Lula veio ao Senegal para participar do Fórum Social Mundial em uma mesa de debates sobre “A África na geopolítica mundial”, na qual falou ao lado do presidente senegalês, Abdoulaye Wade.

Ao longo de sua exposição, bastante aplaudida por dezenas de ativistas brasileiros, Lula defendeu a criação de um Estado Palestino, apoiou a revolta popular no Egito, criticou as potências econômicas e o neoliberalismo e exaltou os resultados de seus governos (2003-2010), sobretudo no que diz respeito ao combate à miséria.

Após voltar ao Brasil, o ex-mandatário brasileiro fará outra viagem internacional neste mês: a convite, visitará o presidente venezuelano, Hugo Chávez, que enfrentará eleições em 2012.

Em sua fala no Fórum, Lula afirmou que as nações africanas precisam cortar os laços de dependência que ainda mantêm com as ex-metrópoles. Para isso, a questão alimentar seria essencial. “Não há soberania efetiva sem segurança alimentar”, disse. Para o ex-presidente, a experiência brasileira na área agrícola, ainda que não seja possível a “transposição de modelos”, revela que é viável a expansão da produção de alimentos em terras pouco valorizadas.

“Até os anos 70 o cerrado brasileiro era considerado um deserto verde, sem condições de sustentar uma agricultura produtiva”, lembrou Lula. Mas, graças à atuação do Estado no fomento à pesquisa, essas regiões “tornaram-se grandes fornecedoras de alimentos para o mundo e viabilizou-se a política de erradicação da fome em nosso país”.

Para ele, as savanas africanas poderiam repetir a história do cerrado no continente. Segundo Lula, as savanas se espalham por mais de 25 países da África e, com investimento em pesquisa, seria possível desenvolver seu potencial agrícola.

Hoje, apenas 10% da área das savanas possuem cultivos agrícolas. Na opinião do brasileiro, a elevação desse índice ajudaria a reduzir o drama da fome no continente, que poderia se tornar um grande fornecedor de alimentos no mundo. “Se o território dos países ricos está escasso para produzir alimentos, se há mais africanos, chineses, indianos, coreanos e latinos comendo, onde há terra para produzir alimento?”, questionou, para em seguida responder: “A África e a América Latina podem e devem suprir os alimentos que são um produto essencial para a vida humana”.

Lula criticou ainda os subsídios agrícolas dos países ricos e a atual escalada de preços das commodities no mundo, afirmando que a culpa é da especulação. “Não há nenhuma explicação para o preço do petróleo superar 100 dólares”, disse.

Em ataque direto à ciranda financeira, o ex-mandatário lembrou que, apesar de sempre faltarem recursos para programas de erradicação da fome, sobraram fundos para “resgatar bancos e instituições financeiras na recente crise financeira internacional”.

Para o brasileiro, os países africanos precisam alterar os modelos de cooperação internacional vigentes e não mais aceitar a imposição de modelos externos.

Revoltas populares

O ex-presidente brasileiro registrou pleno apoio às revoltas populares que ocorrem no Norte da África e no Oriente Médio – segundo ele, causadas pela pobreza, pela dominação de tiranos e pela submissão das políticas internas à agenda das grandes potências. E avaliou que a criação de uma cultura de paz – um dos temas históricos do Fórum Social Mundial – não dependeria apenas do fim do comércio de armas, mas sobretudo do combate à fome, à desigualdade e ao desemprego.

Além de criticar a intolerância étnica, cultural e religiosa, Lula mais uma vez atacou o modus operandi dos países ricos, em especial a política da guerra preventiva dos Estados Unidos. Disse que, sem ingerências externas, a África teria mais chances de acelerar seu desenvolvimento econômico e social. “Nos 29 países que visitei como presidente, comprovei a vitalidade deste continente que aqui reafirma sua diversidade ética e cultural”, disse.

Para ele, a inclusão econômica de milhões de africanos pode ser uma estratégia para superação mais rápida da crise financeira internacional – assim como a expansão do mercado interno brasileiro evitou a intensificação dos problemas no país.

Ao terminar sua fala, Lula afirmou que o impasse em 2008 sobre as negociações comerciais de Doha, conduzidas pela Organização Mundial do Comércio, não foi resolvido até hoje por obra dos Estados Unidos, que se viam em eleições internas. Lula defendeu o engajamento dos ativistas nesse processo de negociações, bastante contestado por organizações que discutem o tema agrícola no Fórum Social Mundial.

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